domingo, 26 de dezembro de 2010

É HORA DE DIZER ADEUS - I

O blog do Omar Peres chega ao seu final. Tomei essa decisão de forma madura, sem rancor, pois não há motivo para tal sentimento. Foi uma fase importante da minha vida, quando, tenho certeza, dei uma boa contribuição para a liberdade do pensamento e, da imprensa da cidade, mas principalmente por ter tido a oportunidade de fazer as pessoas pensarem, e serem instigadas a refletir sobre nossa realidade politica. Mas esse tempo para mim chegou ao seu final. Agradeço a todos, amigos e adversários que fizeram do blog, o mais acessado de Juiz de Fora .

Quero dar meu depoimento de reconhecimento a alguns participantes que trouxeram o espírito da liberdade em seus textos, assinando seus nomes: Rogério Moraes, Júlio Sarchis, Gil Braz e Eurico Moura. Com suas consciências críticas, souberam demonstrar indignação, sentimento mais do que necessário em Juiz de Fora, em Minas e, no Brasil. Obrigado a todos que também, de forma anônima (é verdade) enviaram seus textos e comentários, mas que por motivo de perseguição, não podiam assinar o nome.

Escrevi uma última série de cinco artigos , que publicarei durante esta semana, deixando-os , a partir de hoje, por mais 15 dias, tirando , em seguida, o blog do ar. O participante, como sempre, se desejar, poderá comentar.


É HORA DE DIZER ADEUS - I

Tudo o que quis dizer durante todos esses anos, foi dito. Três foram os motivos que , exclusivamente, me levaram a tomar a decisão de tirar do ar o blog do Omar Peres : primeiro por considerar que o blog cumpriu seu papel como veículo democrático, onde se debateu todos os temas de relevância para a cidade. Dele, saíram as principais contradições politicas da de Juiz de Fora; segundo, por mais que tenhamos tido quase um milhão de visitas, considero-o sem importância e poder, como instrumento para mudanças, e de mensagens que pudessem ou possam mudar realidades históricas incontestáveis da cidade. E, por fim, os novos desafios que a vida me propôs, devo confessar, me seduziram por completo e, que me obrigarão, já a partir do inicio do ano que vem, a me ausentar do país (não estou me mudando, mas vou residir entre a Europa e Brasil).


Nem por isso, deixarei meu negócio em Juiz de Fora, onde estarei presente pelo menos uma vez ao mês, com residência fixa, e sempre que possível, almoçando com meus amigos na Chimarron, jantando no Afonso ou, na Churrasqueira !


Além desses motivos, devo confessar, estou sem nenhum entusiasmo para continuar escrevendo e monitorando o blog. Dá trabalho ! No fundo, estou sem entusiasmo e, sem nenhum incentivo intelectual por não acreditar no futuro politico do Brasil, que era até então, o que me motivava a participar da vida pública de nosso país. Não tenho a menor esperança na implantação das imprescindiveis e necessárias mudanças nas estruturas de nossas instituições. Daí, minha total desmotivação. A vida apresenta mil outras formas de participar, de contribuir, que não seja a politica. É o que estou fazendo. É o que vou fazer.

Minha descrença nas instituições, é fruto da observação cotidiana, sobre a realidade dos poderes legislativo, judiciário e executivo do Brasil, que, infelizmente, demonstram a inviabilidade de transformarmos esse maravilhoso país em uma moderna e, justa nação.

A sociedade brasileira e, suas principais lideranças, souberam e sabem (!) dar continuidade ao que há de pior da história de nosso período colonial, cuja herança lusitana se faz presente, até os nossos dias. Prova dessa constatações são os consolidados e imutáveis monopólios economicos, o compadrio nas importantes funções públicas, as oligarquias politicas que dominam na maioria dos estados, no nepotismo e, principalmente, como consequência, na desenfreada corrupção .

No âmbito do legislativo, não vejo (com raras excessões) legitimidade em quem é eleito, nos oferecendo, portanto, um congresso indesejado. Nosso sistema politico só permite a eleição de quem tem muito dinheiro ( e sabe gastá-lo - o que não é o meu caso), ou já se encontra encastelado na estrutura do Estado.

Só se elege no Brasil quem possui essas duas credenciais. Em minha última (última mesmo) disputa eleitoral, todas as "lideranças" que me apoiaram receberam dinheiro para esse "apoio". Poucos, muito poucos, receberam meu dinheiro com fins específicos para realizar despesas de campanha. A maioria expressiva cobra pelos votos que pode transferir, exigindo dinheiro pelo trabalho. Quando a gente vê que candidato está sendo "apoiado" pelo prefeito pelo vereador, e por lideranças, a leitura deve ser : prefeito, vereador e liderança cobraram e receberam tanto de dinheiro. Repito: há raras excessões. E o povo vota... Não existe idéias, partidos, ideais. O que manda é o dinheiro. Haja visto os bandidos que são eleitos.

Verdade que o "ficha limpa" melhorou um pouco o nível dos candidatos, mas mesmo assim o dinheiro prevaleceu sobre todos os valores éticos e sobre os critérios ideológicos. O PT, nossa última esperança não pratica nada de diferente do PSDB, PMDB e outros. Recebeu dinheiro na cueca, criou o mensalão etc. Tão venal e vulgar como qualquer outro. Tudo pelo dinheiro, tudo pelo poder.


Toda essa "compra de votos" encontra base legal através de nossa atrasada legislação eleitoral, onde empresas e, o próprio candidato legalizam esse comércio, através das doações de campanha. Em outras palavras, quem tem dinheiro, possui infinitamente mais chances de "comprar votos" que o simples cidadão, muitas vezes, melhor capacitado para representar a sociedade. Quem não tem dinheiro está condenado a ser coadjuvante de nossa "democracia".


Basta olhar os resultados das última eleições: 90 % dos eleitos, ou eram parlamentares que tentavam a reeleição, ou empresários que gastaram para se eleger mais de R$ 10 milhões. Mas nenhum deles declara mais que R$ 1 milhão. E não há o que fazer. Quem banca essa festa ? Caixa dois! Como provar caixa dois ? Praticamente impossível. Um amigo meu, me disse, que no dia da eleição para prefeito, distribuiu R$ 2 milhões para a compra de votos. Veio em uma mala, em avião particular.

Em minha última campanha, decidi que gastaria certa quantia de dinheiro, nem mais um centavo. Se tivesse gasto o triplo, teria sido eleito, independente da pífia votação que obtive na cidade que mais lutei politicamente: Juiz de Fora. Mas, também, independente dela, se tivesse investido mais alguns milhões, teria sido eleito. No fundo, acho que esperava um "milagre", ou seja, ser eleito pelo meu currículo, por minha honestidade. Que pretensão..


Qual sistema eleitoral seria o ideal , e o que sonho para o Brasil ? Que fosse o Estado o único financiador das campanhas, ou seja, o povo que bancasse o custo das eleições, sendo a própria sociedade a única beneficiária . Assim, as eleições teriam um caráter absolutamente democrático, pois todos os candidatos teriam, a rigor, exatamente os mesmos recursos , chances iguais. Nenhum candidato poderia aplicar recursos próprios, muito menos receber doações.


Além do financiamento público, é fundamental a implantação do voto distrital, pois além de legitimar o candidato de sua região, eliminar-se-ia, por absoluto, a compra de votos por aqueles que caem de para-quedas de 4 em 4 anos em cidades que não sabem, sequer, em que região se encontra.

Para quem não conhece o sistema de voto distrital, um simples resumo: quem é de Belo Horizonte, Norte de Minas etc. , não poderia ser votado na Zona da Mata e, vice-versa, legitimando assim , como seu representante, o candidato de sua região.

O voto distrital é correto, e legitima um sistema eleitoral avançado, representativo e democratico. Infelizmente, isso jamais vai acontecer no Brasil. Quem se elege comprando votos, como acontece hoje, jamais permitirá que tirem dele a chance de se eleger eternamente, comprando votos em todas as regiões. E, os prefeitos e vereadores também perderiam um fonte extra de renda. Com a compra de votos, o candidato sequer precisa procurar as "lideranças" que venderam os votos. É um negócio, onde se compra a mercadoria (o voto) e, se recebe por isso ( o dinheiro legalizado). Negócio liquidado.

Um dia, Antonio Jorge, atual Secretário de Saúde de Minas, me disse que "politica é um ato coletivo " e, minha trajetória de sucesso empresarial era um ato individual ". E, isso , seria incompátivel com quem tem ambições na vida pública. Ele tinha absoluta razão. Daí , somados aos meus outros defeitos, o meu insucesso eleitoral.

É verdade: nunca consegui me compor com esse "ato coletivo", que significa, em outras palavras, se relacionar com quem vive exclusivamente da politica, faz negócios com politica, mente com a politica, engana com a politica, mas consegue empregos públicos para amigos, recebe e opera dinheiro de caixa dois e, com um detalhe ainda mais importante: nunca denunciam os atos de corrupção e de falcatruas de quem está no poder. Esse é um dos segredos da politica: nunca acuse, nunca fale a verdade. Você será vetado...


No meu caso, olha que tive chances de me compor, de me acomodar com o poder. Fui convidado para ser Secretário de Governo e, recusei. Foi uma honra, mas estaria negando toda a minha luta e posições. E, mesmo porque, já havia sido Secretário de Itamar Franco. Sou um "fazedor". Não consigo deixar de criar e fazer coisas. Essa é a minha missão, o que é incompatível com funções no Estado.


Não muito diferente do Brasil, o maior exemplo da "politica como ato coletivo" que conheci foi Juiz de Fora. Aqui, todo mundo é adversário até ver quem ganhou a eleição. "Brigam" até o dia da posse. Depois todo mundo se acerta, todo mundo se acomoda. Todo mundo muda de lado e, quem os elegeu, o povo, é barrado na festa. O eleitor grita, contesta, mas depois vota, novamente, nos mesmos eternos candidatos.

Olhemos, como exemplo, o atual governo da cidade: as principais figuras de confiança de custódio mattos, são os mesmos "adversários" da última e, penúltima eleição . São sempre os mesmos. E, por esse motivo, Juiz de Fora está para ser uma Nova Iguaçu, ou São Gonçalo, do que para uma nova Ribeirão Preto ou, Uberlândia ! Aqui, idéias e debates sobre o futuro são inadequados. Não dá voto o contraditório. O PT, com Margarida Salomão, não tinha nenhuma idéia, nada de novo, mas com silêncio, sem contestar nada, quase chegou lá. Mas o PT nunca ganhou nada em JF.


As principais figuras do atual governo municipal , também já foram principais figuras dos governos Tarcisio Delgado, cuja filha Érica, beijou a mão (!) e, foi Secretária de Carlos Alberto Bejani ! Seu filho, o Deputado Júlio Delgado, mesmo sabendo do "extenso currículo" de Bejani, ajudou a eleger o prefeito que renunciou, contra o candidato custódio mattos, talvez o único inimigo de Tarcisio, um homem de bem. E, quem Júlio Delgado , o filho de tarcisio apoiou nas últimas eleições ? Custódio mattos ! Sem nos esquecermos do ex Deputado Sebastião Helvécio, que depois de ter sido vice de Tarcisio, apoiou Bejani e, por fim, negociou seu apoio ao atual prefeito mediante uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Deu certo, é Conselheiro. E "la nave va" ...


Tudo isso se chama "politica como ato coletivo". Compor sempre para ganhar. Daí a corrupção desenfreada, o nepotismo, a pobreza material, moral , somadas à absoluta ausência da ética. ?E pior, a decadência da cidade, que perdeu totalmente sua importância politica, salvo pelo número expressivo de eleitores.

A consequência desses "atos coletivos da politica" são os incessantes escândalos , a começar pela renúncia do sr. Bejani, e por tantos outros da mesma dimensão. E ninguém, fala absolutamente nada ! E, pior, sem que ocorra repressão, muito menos punição. Bejani está preso? Alguém contestou o patrimônio do custódio ?

Para mim, o pior dos escândalos de corrupção em Juiz de Fora, que suga milhões de dinheiro público, foi a contratação, pela prefeitura , de empresa que faz parte da "máfia do lixo" nacional e, que após ter sido julgada culpada e, condenada a devolver R$ 20 milhões aos cofres públicos da cidade do Guarujá, chegou na cidade contratada por Carlos Alberto Bejani e, em seguida, endossado por custódio. Sem concorrência, ganhou todos os contratos do município.

Essa empresa me processa e, estou proibido, judicialmente, de citar o caso, e o seu nome . Ou seja, não posso ,sequer, comentar decisão judicial, portanto pública, que condenou a empresa a devolver R$ 20 milhões de dinheiro em contrato superfaturado ! Calei-me. Mesmo discordando e recorrendo, obedeço às decisões e às leis de meu país. Mas é desanimador.


E o que acontece com esses ladrões do dinheiro público ? Nada ! Absolutamente, nada !
Estão aí, livre e curtindo suas mansões, iates, fazendas, casas na praia etc., compradas com dinheiro do povo. Onde estão os mensaleiros como custódio e tantos outros ? Livres ! Onde estão os Deputados que iam ao Banco Rural receber dinheiro do Marcos Valério ? Estão aí, livres, leves e soltos ! Alguém foi punido ? Se fossemos elencar todos os escândalos e roubalheira de políticos nos últimos 4 anos, teria de fazer um blog somente para falar sobre o assunto. Perda de tempo.

Fora essa estrutura corrompida, a politica brasileira toma contornos quase feudais: para ser politico, é quase obrigatório ser filho de alguém. Trata-se do filhotismo politico. Em outras palavras, os filhos de políticos que não possuem vocação para nada, vão ser Deputados ou Vereadores, ou até mesmo prefeitos. Com o voto do povo, diga-se de passagem.

De tudo isso, o blog falou, protestou e se indignou. E de que adiantou ? De absolutamente nada, salvo alguns processos em que sou "acusado por crime de calúnia e difamação ! Até o bejani me processa !!! As mansões, os palácios, os carros importados, tudo comprado com dinheiro público roubado, esses , sim, estão protegidos . Por laranjas .


Para a maioria dos que participam da "politica como ato coletivo", eu sou meio, digamos, "maluco" . Um pouco lógico essa definição que esses alguns me dão: como pode alguém que tem tudo para ser eleito, que possui amigos influentes e poderosos, recursos financeiros disponíveis, sucesso empresarial, não participa do " ato coletivo da politica "? Ao contrário, ele só denuncia, se expõe, bate de frente e , só cria inimigos ! Não é um "maluco"? Para quem vive da politica e, quer poder politico, faz todo sentido esse raciocínio, mas para quem não vive da politica, como é o meu caso, nenhum sentido. Não quis e não quero. Mas acho que mesmo "derrotado", deixei minha mensagem. Tive, portanto, a oportunidade de exercer a minha liberdade, daí minha felicidade.

O Brasil, não é muito diferente de Juiz de Fora, na prática da "politica como ato coletivo". Só que como Juiz de Fora é uma cidade em plena decadência economica e politica, os atores são mais agressivos. Como no Maranhão de Sarney, o eleitor, o povo, de Juiz de Fora, definitivamente não quer mudanças.

Estou, literalmente, sem ilusão , pela falta de respeito dos políticos com o povo, mesmo que seja com o mesmo povo que elege essa gente ! Não devemos tapar o sol com a peneira: o povo é o único responsável.

O Estado arrecada bilhões de reais. Os orçamentos municipais aumentam ano após ano. É um grande negócio ser politico... E, por esse motivo, as composições entre os partidos políticos se fazem pelo tempo de TV. Nunca por ideais ou idéias. É um negócio feito pelo que pior existe na sociedade. Por isso, as pessoas de bem , quem produz e , quem carrega esse país nas costas, não quer fazer politica. E, uma campanha majoritária se ganha com a tv. Sem ela as chances de vitória são inexistentes. Portanto, é um grande negócio ser presidente, ou melhor, ser dono de um partido de aluguel, como é a grande maiorias dos partidos em nosso país.

Mas uma coisa é certa: tenho de respeitar o voto popular, pois no Brasil de hoje, ninguém é levado à força para dentro da urna. O voto é livre.

Continua.

2 comentários:

maria disse...

Caro amigo Omar, não sei se posso lhe dirigir assim, pois sou mais uma nesta população que não sabe votar e elege estes corruptos sempre caindo na mesmisse, mas , me sinto muito triste e transtornada em saber que um blog como o seu que muitas vezes fala o que eu penso está chegando ao fim. Acredito que realmente você cansou de ser um unico nesta luta desigual, boa sorte em seu futuro pois você meresse

santosaru disse...

Omar, espero que vc ainda volte um dia para ser nosso prefeito